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Por que Sense8 vai fazer muito mais falta do que você pensa

(Divulgação/Netflix)

(TDF/Mundo Estranho)

Pareceu até piada de mau gosto. No primeiro dia de junho, mês em que se comemora o orgulho LGBTQ nos EUA, a Netflix anunciou o cancelamento de Sense8, uma das séries mais inclusivas da atualidade. Com apenas duas temporadas, a produção criada pelas mesmas mentes por trás de Matrix trouxe histórias que tocavam em questões de raça, etnia, sexualidade e gênero. Nos dois últimos quesitos, a série se destacou como integrante de uma tendência recente do cinema que pode ter um impacto social mais forte do que se imagina.

Até alguns anos atrás, quando uma produção tentava ser inclusiva, ela apresentava no máximo um ou dois personagens que, na maioria dos casos, eram homens gays e brancos. Muitas vezes, tais personagens estavam destinados a serem apenas alívios cômicos e estereótipos ofensivos. Quando eram o foco de alguma história, seus conflitos sempre giravam em torno de se assumir e quase sempre terminavam de uma maneira trágica. Foi por causa disso que a expressão “enterre seus gays” ficou famosa em Hollywood, como forma de apontar e criticar a maneira que os roteiristas tratavam os personagens que fugiam da cis-heteronormatividade.

A partir dos anos 90, alguns diretores começaram a mudar isso e formaram o que ficou conhecido como o “novo cinema queer”. Foi dessa fonte que Lilly e Lana Wachowski foram beber para dar vida ao mundo de Sense8: a série não se contentou apenas em falar sobre as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, mas também se pôs a mostrá-las.

Hernando e Lito (Divulgação/Netflix)

As orgias transcendentais pelas quais a produção ficou conhecida – onde todos os protagonistas se ligam mentalmente num momento de prazer – são apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro diferencial está na construção dos principais casais LGBTQ da história: Nomi e Amanita e Lito e Hernando. Os dois casais incorporam tanto os conflitos da comunidade LGBTQ quanto, e principalmente, seus desejos.

Para entender melhor do que estamos falando, precisamos sair um pouco do espectro da série. No começo de março deste ano, o Huffington Post publicou um artigo intitulado A Epidemia da Solidão Gay (leia a versão traduzida). O jornal reuniu os resultados de diversos estudos que exploram transtornos psicológicos em homens gays – como ansiedade e depressão – e a relação deles com a taxa de suicídio na comunidade LGBTQ dos EUA. A principal conclusão tirada por eles é que, atualmente, grande parte das mortes por suicídio não está mais ligada aos conflitos enfrentados no processo de “sair do armário”, e sim, às relações românticas problemáticas dentro da própria comunidade.

Amanita e Nomi (Divulgação/Netflix)

É claro que é comum as pessoas terem vidas amorosas conturbadas. No entanto, segundo os estudos, na comunidade gay isso se agrava. Além de já serem uma minoria, ou seja, já sofrerem uma discriminação externa, os homens gays ainda têm que lidar com um sistema de rejeição interno que menospreza indivíduos fora do padrão de beleza. Tal padrão foi traçado por uma das pesquisas, na qual 90% dos entrevistados disseram procurar um homem “alto, jovem, branco, malhado e masculinizado”. Mesmo que com algumas alterações, os pesquisadores apontam que esse sistema de rejeição pode ser identificado nos outros ramos da comunidade LGBTQ.

A mídia tem um papel importante nessa questão. Um dos relatos mais marcantes dos estudos está na fala de James, sobrinho de um dos pesquisadores entrevistados pelo Huffington Post. James é um jovem de 18 anos que viveu toda a sua vida num ambiente amigável e diverso, tanto em casa quanto na escola. Ainda assim, quando chegou sua hora de se assumir, ele passou por um grande estresse emocional que, até então, não fazia muito sentido. “Na TV, eu estava vendo todas essas famílias tradicionais”, ele explicou ao jornal. “Ao mesmo tempo, eu estava assistindo a um monte de pornografia gay, onde todo mundo é supermalhado e solteiro e transando o tempo todo. Então eu pensei que essas eram minhas duas opções: esse conto de fadas que eu nunca poderia ter, ou essa vida gay onde não teria romance.”

É aí que Sense8 se destaca. O desenvolvimento de Nomanita e Hernito não se dá sob um olhar heteronormativo. Com suas co-diretoras trans, a série parte de um território LGBTQ, mas não se torna cheia apenas de representações vazias. As minorias não estão na história só para fazer número ou servir de isca para uma audiência diferenciada. Elas estão em lugar de destaque e são retratadas da mesma maneira realista que estamos tão acostumados a ver sendo aplicada aos casais héteros da ficção.

Mesmo que alguns problemas dos protagonistas ainda girem em torno do processo de se assumir e da discriminação da sociedade (é o caso de Lito com a indústria cinematográfica do México e Nomi com a sua família), esses conflitos não terminam de forma trágica – como provavelmente terminariam alguns anos atrás. Tais concepções parecem bem ignoráveis, mas são de grande importância.

Lito e Nomi (Divulgação/Netflix)

Sense8 acerta bastante ao mostrar que, ao não se verem representadas no mundo, as pessoas da comunidade LGBTQ acabam se autorreprimindo, buscando mudar a si mesmas em nome de uma suposta “normalidade”. Isso é expressado em um diálogo entre Nomi e Lito na primeira temporada, num momento crucial da jornada dos dois dentro da narrativa. “A verdadeira violência, a violência que eu percebi que era indesculpável, é a aquelas que fazemos com nós mesmos, quando temos medo de ser quem realmente somos”, diz Nomi ao colega.

É claro que a representatividade em Sense8 não é perfeita. Com todos os protagonistas magros e musculosos, os corpos exibidos na série ainda reforçam o mesmo padrão de beleza vendido há tanto tempo pela mídia. Ainda assim, isso não exclui o fato que a produção abriu um imenso precedente para o mundo da TV e do streaming.

Apesar de não ter sido um grande sucesso viral como foram outras produções da Netflix, Sense8 construiu uma base sólida de fãs ao dar espaço para realidades que muitas vezes são ignoradas. Pregando a união apesar das diferenças, a série termina deixando não só uma história inacabada, como também um grande vazio que dificilmente será preenchido por outra produção.

Comentários
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  1. Roberto Costa

    Vai fazer falta alguma .. Série mais boba.

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