Quando entraram no estúdio, em 20 de dezembro de 1966, para gravar seu oitavo disco, os Beatles não queriam mais ser os Beatles. O roqueiro Bob Dylan já havia cantado a bola, quando Paul McCartney lhe mostrou “Tomorrow Never Knows”, faixa que encerrava o álbum anterior do grupo: “Ah, já sei. Vocês não querem mais ser bonitinhos”. Mas era mais do que isso. Eles queriam mergulhar na onda psicodélica, que varria o mundo.
Inspirado pelo próprio Dylan, pelo disco Pet Sounds, dos Beach Boys, e pela vanguarda dos compositores eruditos John Cage e Stockhausen, entre outros, o grupo transformou o estúdio Abbey Road, em Londres, num grande laboratório criativo durante quatro meses.
CAOS CONTROLADO
Gravação bagunçada resultou num dos álbuns mais clássicos do rock
ARREGAÇANDO AS MANGAS
O disciplinado Paul McCartney foi forçado a assumir as rédeas, admitindo depois que teve de tratar os amigos como meros integrantes da banda. Era ele quem decidia com os técnicos os takes que seriam usados e foi dele a idéia da capa do disco, executada pelo artista plástico Peter Blake
RECORTE E COLE
Em “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, eles queriam usar um calíope. Como não encontraram esse tipo de órgão para alugar, pegaram registros antigos do instrumento nos arquivos da gravadora EMI. Os trechos foram embaralhados, jogados pra cima e colados aleatoriamente na música
NO CÉU COM LUCY
Não foi uma das melhores fases de John Lennon. Entediado com a vida de pai de família no subúrbio inglês, ele mergulhou fundo em experimentações com maconha e LSD. No estúdio, parecia distraído.Foram sete sessões para finalizar “Good Morning, Good Morning”!
EVENTO DE GALA
“A Day in the Life” foi feita em partes (o som de despertador marcava de onde os músicos deveriam continuar a gravação). O começo e o fim foram registrados na mesma sessão. O meio teve a participação de 41 músicos da Filarmônica de Londres, em roupa de gala. Foi um grande evento, presenciado até por Mick Jagger
LEI DO MÍNIMO ESFORÇO
Sabe o clima etéreo em “Lucy in the Sky With Diamonds”? É resultado do chamado Automatic Double Tracking (“tração automática dupla”): a voz é gravada e depois passada a outro gravador, onde é tocada com velocidade alterada e sobreposta à original. Ficam parecendo duas vozes distintas. Lennon adorava: ele tinha preguiça de repetir seus vocais
APERTA QUE DÁ!
Nos EUA, já havia gravações em oito canais, mas na Inglaterra o limite eram quatro. Usava-se o “overdub”: a música era passada de um gravador a outro, fundindo, por exemplo, bateria, baixo, guitarra base e pianos em dois canais. Isso liberava os outros dois para vocais, guitarra solo e outros instrumentos
Para os críticos, o uso do “overdub” faz o som de faixas como “A Day in the Life” parecer “achatado”
BANDA ALTERNATIVA
Sgt. Pepper’s foi pensado como um álbum sobre a infância no norte da Inglaterra interpretado pela Banda do Clube dos Corações Solitários, um alter ego dos Beatles. Mas o conceito se perdeu ao longo da produção. Restou só a “persona” de Ringo Starr, Billy Shears, apresentado entre a primeira e segunda faixa, interpretada por ele.
No auge da beatlemania, o quarteto boêmio preferia gravar à noite para evitar a histeria das fãs na porta do estúdio. A galera do Pink Floyd, que preparava seu primeiro disco no estúdio ao lado, visitou as gravações e se surpreendeu com a bagunça
O QUINTO BEATLE
Responsável pelos discos do grupo desde o início da carreira, o produtor inglês George Martin desta vez precisou de paciência. A banda com que trabalhara até então – aquela já ensaiada, que gravava “ao vivo” – agora decidira criar as músicas no estúdio e registrá-las aos poucos. E ele não ficou nada feliz de receber ordens de Paul na mesa de som.
PAPO DE LOUCO
Ao final do disco, ouve-se uma conversa ao contrário que provoca a curiosidade de fãs até hoje. Segundo Paul, é só um papo qualquer entre eles, usado como piada interna – já que, quando estavam “alterados” e escutavam discos juntos, eles costumavam viajar no “tic tic tic” do último sulco do vinil, pensando que poderia vir algo depois.
O fascínio de George Harrison pela cultura oriental aparece bem em “Within You Without You”, com instrumentos como tabla e cítara
CANTE COM A GENTE
A capa mais parodiada da história da música trazia no encarte figuras recortáveis e, pela primeira vez, as letras das canções.
FONTES Livros Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band - Um Ano na Vida dos Beatles e Amigos, de Clinton Heylin, e The Beatles, de
Bob Spitz, documentário It Was 20 Years Ago Today e icons.org.uk