Mundo Estranho

Quais são os principais tipos de anestesia?

por Luiz Fujita | Edição 76

1- Para entender como agem os vários tipos de anestesia, é preciso entender antes como a dor é transmitida. Ela é um sinal de que há algo errado numa parte do corpo. E esse sinal segue da parte ferida até o cérebro viajando por nervos, que são como fios espalhados pelo corpo. Os nervos são formados por uma seqüência de células especiais, os neurônios.

2- O interior do neurônio é eletricamente negativo e o ambiente em volta dele é positivo. Quando ferimos uma parte do corpo, o neurônio mais próximo do local abre na sua membrana os chamados canais de sódio, que permitem a entrada de íons de sódio. Como esses íons são positivos, o interior da célula vai perdendo seu estado negativo.

3- Para voltar ao estado original, o neurônio abre seus canais de potássio para a saída de íons de potássio (positivos) da célula. Essa seqüência de entra-e-sai vira uma reação em cadeia, que vai passando de um neurônio para outro até chegar ao cérebro. Lá, essa seqüência de alterações na carga dos neurônios é "traduzida" como um sinal de dor.

ANESTESIA LOCAL

Substâncias como a lidocaína agem quimicamente nos neurônios perto do ferimento

1- No caso de um ferimento mais simples, os médicos podem interromper o mecanismo de transmissão do sinal da dor aplicando uma anestesia local. Se você cortou a mão, por exemplo, recebe uma injeção com anestésicos na região do corte.

2- Os anestésicos locais têm substâncias, como a lidocaína e a bupivacaína, que reagem quimicamente com os neurônios da região machucada, impedindo a abertura dos canais de sódio. Assim, o processo de transmissão da dor é interrompido logo de cara.

ANESTESIA GERAL

Coquetel de drogas atua nos neurônios cerebrais, bloqueando a dor de qualquer parte do corpo

1- Muitas vezes o paciente precisa estar imóvel ou inconsciente para não atrapalhar a intervenção médica. Aí entra a anestesia geral, que é uma mistura de substâncias com várias funções. Ela é aplicada na veia, pois pela corrente sanguínea os anestésicos chegam mais rápido ao cérebro.

2- Uma das substâncias do coquetel da anestesia geral tem a função de impedir que o sinal da dor seja decifrado no cérebro. Essa substância, que pode ser uma droga como o remifentanil, abre receptores dos neurônios cerebrais por onde entram íons de cloro, que são negativos.

3- Cheios de íons de cloro, os neurônios cerebrais ficam sempre "no negativo" - mesmo com aquela reação iniciada no local ferido. Como as células mantêm seu equilíbrio, o sinal da dor não é transmitido na região. E, como é o cérebro que "traduz" esse sinal, a pessoa não sente dor em nenhuma parte do corpo.

4- No coquetel da anestesia geral ainda há substâncias que levam à inconsciência e relaxantes musculares que impedem a movimentação do paciente. Cada droga age em vários tipos de receptores dos neurônios cerebrais, e o anestesista vai administrando suas doses durante toda a cirurgia.

ANESTESIA REGIONAL

Raquidiana e peridural bloqueiam a transmissão da dor quando o sinal chega à medula

1- Um meio-termo entre as anestesias local e geral são as anestesias aplicadas em regiões stratégicas do corpo, como a raquidiana e a peridural. Esse tipo de procedimento interrompe a ransmissão do impulso da dor na medula, que é por onde passa a maioria dos nervos do corpo. O aciente fica então imune à dor do umbigo para baixo.

2- A anestesia peridural é aplicada fora do canal espinhal, numa camada de gordura em volta da dura-máter. Como é injetada em um local menos invasivo e arriscado, é possível pôr um cateter e ir aplicando mais anestésico por várias horas, de acordo com a necessidade da cirurgia. Mas ela romove um relaxamento menor que a raquidiana.

3- A anestesia raquidiana é aplicada na dura-máter, membrana que envolve a medula. O médico precisa perceber que atingiu o local exato da aplicação da injeção pelo tato! Como ela age em um espaço-chave na transmissão das sensações, com pouco anestésico já se consegue um grande relaxamento, o que é bom em cirurgias mais delicadas.

CONSULTORIA: IRIMAR DE PAULA POSSO E MARIA CARMONA, ANESTESIOLOGISTAS DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE SÃO PAULO

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