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Como funciona a lavagem cerebral soft?

Sabe aqueles momentos em que a publicidade parece estar manipulando a gente? Para especialistas, essa é a lavagem do tipo "soft"

Por Carolina Canossa - Atualizado em 4 jul 2018, 20h12 - Publicado em 21 jul 2016, 16h26

Ilustra Cezar Berje

edição Felipe van Deursen

Imagine perder o controle de seus pensamentos e virar uma espécie de robô que age da forma desejada por um político, um religioso ou uma empresa. Esqueça, porém, a imagem de alguém alterando seu cérebro com choques, cirurgias ou pílulas. Não há fórmula mágica na lavagem cerebral. “Trata-se de uma aplicação de técnicas psicológicas comuns, mas em um nível muito extremo e coercitivo”, diz Kathleen Taylor, pesquisadora da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e autora de Brainwashing – The Science of Thought Control (“Lavagem cerebral, a ciência do controle do pensamento”, sem edição no Brasil). O conceito de lavagem cerebral remete a um termo do mandarim, “hsi-nao“, usado na meditação para definir a limpeza da mente ou do coração. Ele surgiu nos anos 1950, quando o jornalista norte-americano Edward Hunter buscava uma explicação para a súbita mudança de comportamento de soldados de seu país. Eles haviam sido reféns de chineses e norte-coreanos na Guerra da Coreia e, ao voltarem aos EUA, tornaram-se comunistas ferrenhos.

LEIA A REPORTAGEM “CÉREBROS DOMADOS”

– Seis casos famosos de lavagem cerebral

– Como funciona a lavagem cerebral forçada

– Como funciona a lavagem cerebral de grupos

– Saiba como não ser uma vítima de lavagem cerebral

 

Lavanderia cotidiana

Sabe aqueles momentos em que a publicidade parece estar manipulando a gente? Para especialistas, essa é a lavagem do tipo “soft”

É ou não é?

O ponto é polêmico, porque não há isolamento nem ameaça física, tampouco a pessoa é obrigada a se expor a essas mensagens. Por isso, muitos especialistas defendem que isso é mais persuasão que lavagem cerebral

Um minutinho do seu tempo?

A tentativa de convencimento geralmente não é feita de forma direta, mas por indução, levando a pessoa a crer que a decisão final é dela. Por exemplo, vendedores que abordam potenciais consumidores com opções pré-prontas, como “quer economizar?” Ora, quem não quer? Talvez nem haja uma promoção, mas isso já induz a pessoa a parar e pensar que pode haver algo vantajoso ali

O filtro da política

A distorção ou simplificação extrema de informações é outra forma de levar as pessoas a conclusões predeterminadas. Campanhas eleitorais são craques nisso. Enquanto os partidos de situação nos fazem pensar que vivemos em um paraíso, os programas da oposição dão a impressão de que estamos às portas do inferno

“Filma a cara dele!”

Programas policiais também exageram nas simplificações. Segundo Laura Dauden, pesquisadora do tema, “telespectadores se sentem tranquilos ao dividir pensamentos violentos quando os identificam nesses jornais”. Por isso, o público é induzido a ter opiniões simplórias sobre questões complexas, como: “A solução para o crime é fácil, bandido bom é bandido morto”

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Exposição demais

A força da lavagem”light” está no combo. Um único comercial de guloseima não engorda ninguém, mas ser bombardeado por isso pode comprometer a alimentação da pessoa. Outro exemplo: as coberturas sensacionalistas de quedas de avião criam a sensação de que viajar de carro é muito mais seguro, o que está longe de ser verdade

Gato por lebre

Propagandas trabalham com a imposição de necessidades. Muitas vezes, elas sequer remetem diretamente ao produto que vendem, mas ao preenchimento de um desejo. Ao usar belas mulheres para promover carros, a ideia é dar ao possível comprador a sensação de que a vida sexual melhoraria se ele tivesse aquele veículo

Repressão pra valer

Governos, claro, também fazem uso de propaganda para manipular as pessoas. Um caso extremo é a Coreia do Norte. Na escola, as crianças sabem da existência de poucas nações no mundo. E, quando sabem, muitas vezes o que aprendem é deturpado. O país ensina que a rival, Coreia do Sul, era colônia dos norte-americanos, que estupravam mulheres e matavam crianças

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Dormindo com o inimigo

Relacionamentos abusivos também podem incluir esse tipo de controle

Relações afetivas conturbadas podem ser vistas como esse tipo de manipulação mental. No início, ela é “soft”, pois o algoz tenta ganhar a confiança da vítima ao estabelecer uma imagem de harmonia por meio da criação de vínculos. A dominação chega aos poucos, minando a autoconfiança do alvo (como o marido que diz frequentemente que a esposa é feia) e criando uma relação de dependência psicológica e, muitas vezes, financeira (quando repete que ela não é capaz de viver sem ele). Mesmo diante de fatos concretos, como a mulher ter um emprego que paga mais, ele afirma que a esposa só conseguiu isso por sorte e que é questão de tempo para conseguir superá-la e ganhar mais grana que ela. Ainda que perceba algo de errado, a vítima sempre dará uma desculpa (“Não foi isso o que ele quis dizer” etc.). Em um segundo momento, o abuso pode se assemelhar à lavagem cerebral por força, com agressão física e isolamento de familiares e velhos amigos.

O lado bom (e polêmico)

Há quem defenda que ela possa ser usada para recuperar pedófilos ou assassinos seriais. Já pensou?

1. Tal solução está muito mais próxima da realidade do que você imagina. Recentemente, estudos feitos pela Universidade Northwestern (EUA) e pela Universidade de Leiden (Holanda) mostraram ser possível minimizar o racismo e o sexismo em voluntários por meio de estímulos cerebrais

2. No estudo norte-americano, quando as pessoas atingiam o estágio profundo do sono, um alto-falante repetia frases que ligavam negros a palavras boas ou mulheres a termos de ciência. Quando acordava, o grupo refazia um teste em que se associam rapidamente imagens com palavras. Antes, o exame apontava um nível de preconceito de 0,55. Depois, o índice caiu para 0,17

3. Na pesquisa holandesa, a queda no nível de preconceito ocorreu após as pessoas receberem choques elétricos de baixa intensidade no córtex pré-frontal. Ainda não se sabe ao certo o mecanismo cerebral que provoca essa alteração nem quanto tempo ela dura. Mas já tem polêmica na área, pois os especialistas debatem sobre os limites éticos para esse tipo de terapia. “Vai depender das circunstâncias e das crenças das pessoas que julgarão isso”, diz a pesquisadora Kathleen Taylor

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CONSULTORIA Kathleen Taylor, psicóloga e especialista em neurociência da Universidade de Oxford (Reino Unido) FONTES Livros Brainwashing, de Kathleen Taylor, Dark Psychology 101, de Michael Pace, Banned Mind Control Techniques Unleashed, de Daniel Smith, Thought Reform and the Psychology of Totalism, de Robert Lifton, e The Search of Manchurian Candidate, de John D. Marks

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